Palimpsesto Urbano - Quando duas mulheres transformaram a ruina em futuro.
- 13 de jan.
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Atualizado: 14 de jan.
Quando a Academia Brasileira de Arte Visionária atravessa os portões do SESC, não entra apenas em um edifício: entra em uma ideia radical de mundo. Um mundo em que cultura não é ornamento, nem luxo — é direito, convívio, experiência viva.
O que hoje chamamos SESC Pompeia nasceu de um gesto que ainda reverbera como um ato de desobediência criativa. Em 1971, quando o SESC adquiriu a antiga fábrica de tambores e geladeiras, a lógica dominante era simples: demolir tudo e construir algo “novo”. Mas duas mulheres recusaram esse apagamento da memória.

Lina Bo Bardi, arquiteta, pensadora e insurgente, e Gláucia Amaral, artista têxtil, curadora e estrategista cultural, enxergaram ali não uma ruína, mas um corpo vivo. Um organismo social que já pulsava com crianças, operários, idosos e vizinhos. Onde outros viam entulho, elas viram futuro. Lina dizia:
“A arquitetura não é o desenho, é a vida que acontece dentro dele.”

E Gláucia, ao trazer a cultura popular brasileira para o centro do SESC, já afirmava na prática que o Brasil profundo — indígena, nordestino, caipira, urbano, artesanal — merecia ocupar o coração da metrópole.
Foi desse encontro que nasceu a ideia de uma “Cidadela da Liberdade”: um lugar onde lazer, arte, corpo e imaginação pudessem coexistir sem hierarquia. Lina recusava os termos “centro cultural” ou “complexo esportivo”. Preferia Centro de Lazer, porque ali o que importava não era a performance, mas o convívio.
“O lazer é uma necessidade humana tão profunda quanto o trabalho.” — Lina Bo Bardi

Contra a ortodoxia das consultorias, Lina e Gláucia defenderam a permanência da fábrica como documento histórico vivo. Não para musealizá-la, mas para libertá-la. Assim nasceu o que Lina chamou de Arquitetura Pobre — não no sentido de carência, mas de verdade. Tijolos aparentes, concreto nu, tubulações visíveis, materiais honestos. Nada para esconder, nada para simular.
No canteiro, Lina praticava o que chamava de Action-Architecture: o projeto não era um plano fechado, mas um organismo em transformação. Desenhos mudavam conforme o uso real surgia. Crianças brincavam, idosos conversavam, corpos ocupavam — e a arquitetura escutava.
“O importante não é a forma, é o que acontece dentro.”

O famoso “tijolo de galinheiro”, vazado, foi replicado não por nostalgia, mas por inteligência climática e respeito à ventilação original. Mesmo os “falsos históricos” — luminárias refeitas, condutores de água reinventados — não eram engano: eram uma forma de continuidade simbólica. Um compromisso com a alma do lugar.
Por trás desse gesto arquitetônico havia também uma poderosa visão curatorial. Gláucia Amaral havia passado décadas construindo no SESC uma ponte entre o Brasil invisibilizado e o Brasil institucional. Feiras de artesanato, pesquisas de folclore, exposições de cultura popular, encontros entre saberes tradicionais e contemporâneos. Foi ela quem ajudou a formular a ideia de que a Pompeia não seria um centro de elite, mas uma praça cultural do povo.
Há relatos de que o próprio conceito da Pompeia como cidadela nasceu de suas proposições curatoriais. Gláucia entendia que a arquitetura precisava servir a uma ideia maior: a dignidade simbólica das pessoas comuns.
“A cultura não é um espetáculo — é uma forma de existir.”

Lina chamava o apego europeu aos estilos de “retromania”. Rejeitava tanto o modernismo dogmático quanto o pós-modernismo decorativo. No Pompeia, buscou algo mais profundo: uma estética da verdade, próxima do conceito oriental Wabi — a beleza da imperfeição, do uso, do tempo.
O que Lina e Gláucia criaram ali não foi um edifício, mas uma fábrica de liberdade. Um lugar onde o passado industrial não foi apagado, mas transmutado em campo de invenção social. Onde o trabalho virou memória e o lazer virou política.
Em 2015, o tombamento pelo IPHAN reconheceu oficialmente o valor do conjunto. Mas sua importância já era sentida muito antes, nos corpos que ocupam, nos risos que ecoam, nos encontros que acontecem.

Para nós, da Academia Brasileira de Arte Visionária, entrar no SESC Pompeia é reconhecer que nossa própria prática — entre arte, imaginação, transcendência e transformação social — caminha na trilha aberta por essas duas mulheres.

Lina Bo Bardi e Gláucia Amaral nos ensinaram que preservar não é congelar, mas permitir que a vida continue a criar. E que a verdadeira vanguarda, muitas vezes, nasce justamente quando se tem a coragem de escutar aquilo que já estava ali. Para conhecer mais acesse YOUTUBE


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